O Festival Curta Campo Grande entrou em sua terceira edição com o objetivo de ampliar a circulação de produções audiovisuais fora dos grandes centros. O evento, que teve início no dia 26 de outubro e segue até sábado (31), ganhou caráter internacional neste ano. A programação inclui filmes de países como Colômbia, Cuba, Argentina, Grécia e Angola, além de produções brasileiras e sul-mato-grossenses.
A abertura oficial ocorreu na quarta-feira (28), na Capital. O ator Vinícius de Oliveira, conhecido pelo papel de Josué no filme Central do Brasil (1998), participou do evento como integrante do júri das mostras competitivas Curta Brasil e Curta MS. Ele destacou a importância do fomento público para o fortalecimento do audiovisual independente no país.
Fomento e descentralização
Segundo Vinícius, os festivais funcionam como uma das principais janelas de exibição do cinema nacional. Isso é especialmente relevante para os curtas-metragens, que enfrentam dificuldades para chegar às salas comerciais. O ator ressaltou que a presença de editais em diferentes regiões permite que realizadores desenvolvam projetos e ampliem a produção para além do eixo Rio-São Paulo.
“O fomento público está bem mais dissipado hoje em dia. Diversas regiões hoje em dia já têm editais que acontecem e as pessoas conseguem escrever seus projetos e fazer suas realizações”, afirmou o ator. Para ele, a circulação em festivais regionais pode representar o primeiro passo para que os filmes alcancem outros públicos e eventos pelo país.
Vinícius considera que esse processo é importante para a continuidade da carreira de quem trabalha com audiovisual. No entanto, ele observa que ainda há obstáculos para ampliar o acesso do público aos curtas, que raramente chegam às salas comerciais de cinema. A descentralização da exibição permite que histórias produzidas fora dos principais polos cinematográficos encontrem espectadores.
“É fundamental, porque é a grande janela de exibição do cinema nacional e principalmente dos curtas-metragens é isso e chega a lugares onde realmente foge do eixo”, declarou. O festival busca aproximar novos públicos do cinema, incluindo atividades destinadas a crianças e adolescentes em escolas públicas e na Casa de Ensaio.
Ousadia no curta-metragem
Como jurado, Vinícius destacou a liberdade criativa como uma das principais características dos curtas-metragens. Para ele, o formato permite que diretores e diretoras experimentem diferentes linguagens e encontrem maneiras próprias de contar histórias. O curta-metragem é visto como um espaço de experimentação técnica e narrativa.
“O curta-metragem é um espaço onde a gente pode experimentar, onde o realizador, uma realizadora, pode buscar diferentes formas de fazer aquele filme, de contar histórias. Se não é pela ousadia na forma técnica, é pela narrativa, muito potente, muito forte. Isso faz com que o espectador fique ligado e entre naquela história”, explicou o ator. O formato oferece espaço para experiências que nem sempre encontram lugar em produções de longa-metragem, que exigem um planejamento mais elaborado para alcançar o circuito comercial.
A relação entre cinema e público também atravessa a trajetória de Vinícius. Sua estreia no audiovisual ocorreu ainda na infância, em Central do Brasil, dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Montenegro. A trajetória de Vinícius no audiovisual começou aos 12 anos, quando trabalhava como engraxate no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
Ele chamou a atenção do diretor Walter Salles, que o convidou para um teste para Central do Brasil (1998). A experiência abriu caminho para sua carreira no cinema e na televisão, com trabalhos em produções como Linha de Passe, Boi Neon, Sob Pressão e Segunda Chamada. Em 2026, ao completar 30 anos de trajetória no audiovisual, Vinícius também se destaca por Leite em Pó, longa que recebeu três prêmios no Festival de Cinema de Gramado.
“Central do Brasil me deu tudo que eu sou hoje em dia”, afirmou o ator. Ele contou que, antes de participar do longa, não pensava em seguir a carreira artística e ainda não tinha contato próximo com o universo das artes. A convivência com Walter Salles e Fernanda Montenegro marcou sua formação profissional. Vinícius considera que aprendeu com os dois referências que ainda orientam sua maneira de trabalhar.
“As pessoas que eu comecei fazendo lá com o próprio Walter, com a Fernanda Montenegro, duas escolas já de início, eu acho que eu consegui absorver bastante coisa deles e hoje em dia eu tento me apresentar como eu aprendi com eles, que é de uma forma sempre humana, com nobreza e com qualidade, que a gente fica em busca disso sempre”, disse. Quase três décadas após o lançamento do filme, o ator atribui a permanência da obra na memória do público à relação entre Dora e Josué.
Para ele, a força dessa relação está na capacidade de mostrar como o contato com outras pessoas transforma a maneira de enxergar o mundo. “Eu acho que é um filme muito humano. Tem uma ligação entre aqueles dois personagens, Dora e Josué. Muito humana, muito viva. Hoje em dia a gente tem bem menos isso e eu acho que o Central passa muito isso”, concluiu. O Festival Curta Campo Grande segue com sessões gratuitas e debates até o fim de semana, mantendo o foco na valorização das histórias humanas e na difusão do cinema regional.







