Esta semana, três dos veículos de maior circulação nos Estados Unidos e na Europa dedicaram páginas de opinião para analisar a situação política do Brasil, acusando o Supremo Tribunal Federal (STF) de acumular “superpoderes” e colocando em dúvida a plena observância do Estado de Direito após a derrota do senador Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O The Washington Post, principal jornal da capital política norte‑americana, publicou um editorial que descreve a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos como sintoma de desgaste democrático. O texto afirma que “perder uma eleição não deveria levar candidatos a fugir de seus países” e que a falta de confiança do senador em um julgamento justo representa “uma acusação contra a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental”.
Além da crítica ao comportamento do parlamentar, o jornal norte‑americano apontou que os ministros do STF passaram a exercer simultaneamente as funções de “investigadores, acusadores e julgadores” em processos que envolvem ataques à democracia e notícias falsas. Essa sobreposição, segundo o Post, viola o princípio da separação dos poderes e gera imprevisibilidade institucional.
O editorial ainda relembrou a suspensão da rede X em 2024, ordem emitida pelo ministro Alexandre de Moraes, classificando o ato como “ataque flagrante à liberdade de expressão”. O Washington Post comparou o Brasil a países considerados “párias”, como China, Irã e Turcomenistão, por conta das restrições impostas a plataformas digitais.
Reação nos EUA
O The Wall Street Journal, referência global em finanças e negócios, analisou a crise sob o título “No Brasil, a vitória dá lugar à vingança política”. O conselho editorial argumentou que, em democracias consolidadas, vencedores devem agir com moderação, mas no Brasil “eles processam os derrotados”. O jornal destacou que Flávio Bolsonaro não havia recebido acusação formal antes da ordem de retenção de passaporte e que a concessão de visto americano à sua família foi vista como “oferta justificável de proteção política”.
O editorial do WSJ encerrou com um alerta sobre o futuro do regime democrático brasileiro, citando a trajetória de países que passam da liberdade à autocracia: “Um demagogo vence nas urnas, toma o controle do Judiciário e prende seus inimigos. Onde as instituições são fortes, o Estado de Direito pode sobreviver. Não está claro se o Brasil conseguirá”.
Na Alemanha, o Die Welt trouxe a discussão à sua capa, perguntando diretamente se o Brasil ainda é um Estado regido pelo Estado de Direito. O jornal alegou que a “campanha de vingança contra o derrotado nas eleições, Flávio Bolsonaro, mostra como Lula da Silva transformou o Judiciário brasileiro em uma apólice de seguro de proteção legal para sua própria base de poder”.
Implicações internacionais
Além das críticas ao STF, o Die Welt ressaltou o contraste nas indicações para o tribunal superior. O veículo lembrou o desgaste internacional gerado quando o ex‑presidente Jair Bolsonaro indicou um ministro de perfil evangélico, em oposição à aceitação da indicação feita por Lula de seu próprio advogado particular e de um ministro de governo. O jornal também citou anulações de condenações por corrupção e autorizações judiciais que quebraram o sigilo de fontes de jornalistas no país.
Reunidos, os editoriais de Washington, Nova‑York e Berlim demonstram que as decisões tomadas nos tribunais de Brasília ultrapassaram o debate partidário interno e abriram uma crise de credibilidade internacional. O conjunto de análises sugere que a comunidade externa acompanha de perto a evolução das instituições brasileiras, especialmente diante de medidas como a apreensão de passaporte de um senador derrotado e a restrição a plataformas digitais.
Para o Brasil, o próximo passo inclui a resposta institucional às críticas estrangeiras e a necessidade de garantir processos judiciais previsíveis e imparciais. Enquanto o STF segue atuando em casos de alta relevância política, observadores internacionais aguardam sinais de que o equilíbrio entre os poderes será restabelecido, de modo a preservar a confiança tanto dos cidadãos quanto da comunidade global no Estado de Direito brasileiro.








