O mercado da soja no Brasil enfrenta um cenário misto neste início de setembro, marcado pela pressão de baixa nas cotações internacionais e pelo suporte do dólar forte no câmbio local. A análise foi apresentada por Vladimir Brandalize, analista de mercado, durante entrevista ao programa Agro é Massa, da Rádio Massa FM Campo Grande.
Segundo o especialista, a combinação de fatores agrícolas e econômicos define o comportamento dos preços. A proximidade da colheita nos Estados Unidos tende a aumentar a oferta da commodity, o que historicamente pressiona as cotações em Chicago para baixo. No entanto, a valorização do dólar frente ao real ajuda a limitar esse impacto negativo sobre os preços pagos ao produtor brasileiro.
Brandalize explicou que a fase de maturação e início da colheita americana representa o momento de maior disponibilidade do produto no mercado externo. Com o avanço dos trabalhos no campo, os produtores norte-americanos passam a entregar contratos, aumentando a oferta e gerando uma pressão baixista tradicional. O câmbio favorável ao exportador brasileiro atua como um amortecedor dessa queda internacional.
China busca alternativas proteicas
Outro ponto crucial na formação dos preços é o comportamento do principal comprador global, a China. O mercado registrou novas compras de soja norte-americana pelo país asiático, movimento que ajudou a reduzir parte das perdas observadas em Chicago. Apesar disso, o volume adquirido pelos chineses permanece abaixo das expectativas iniciais para a safra 2026/27.
O analista avalia que a China pode estar adotando uma estratégia de diversificação para diminuir a dependência da importação de soja. Entre as alternativas citadas está o uso de DDG, coproduto da produção de etanol que também serve como fonte de proteína para a alimentação animal. Brandalize destacou que os chineses buscam substitutos para o farelo de soja, utilizando o DDG brasileiro e o americano da indústria do etanol.
Além do DDG, o aumento das compras chinesas de trigo russo é outro fator relevante. Como o cereal possui maior teor de proteína do que o milho, sua utilização na formulação de rações pode reduzir a quantidade necessária de farelo de soja. A substituição de insumos na ração impacta diretamente a demanda por derivados da oleaginosa.
Apesar dessas mudanças estratégicas, Brandalize ressalta que a China continua sendo o principal comprador da soja brasileira. A tendência não representa uma interrupção das importações, mas sim uma adequação para não pressionar excessivamente o mercado da soja. A relação comercial entre Brasil e China permanece fundamental para o agronegócio nacional.
Câmbio e política impactam cotações
A concentração das exportações brasileiras no mercado chinês é outro aspecto observado pelo analista. Mais de 70% da soja embarcada pelo Brasil teve a China como destino, contribuindo para um volume histórico de exportações. Com o avanço da colheita norte-americana, a expectativa é de que os chineses aumentem as compras nos Estados Unidos.
O tamanho desse movimento, porém, ainda depende das relações comerciais entre os dois países. Historicamente, a China compra cerca de 20 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos durante a colheita. A incerteza reside na guerra comercial entre ambos, que pode limitar esse volume. A dinâmica entre os dois maiores produtores globais de soja é determinante para o equilíbrio do mercado internacional.
Além dos fundamentos agrícolas, o câmbio brasileiro aparece como um dos principais fatores para a formação dos preços. Brandalize avalia que o ambiente político e as expectativas para a eleição também influenciam o comportamento dos investidores e do dólar. A estabilidade ou instabilidade política reflete diretamente na cotação da moeda americana.
O analista citou que o movimento político atual, incluindo questões no Supremo Tribunal Federal, está deixando o mercado financeiro mais otimista em relação à eleição que se aproxima. Essa percepção de segurança jurídica tende a impactar o fluxo de capitais e, consequentemente, o câmbio. A incerteza política é um dos vetores que os investidores monitoram de perto.
Os juros elevados do Brasil também ajudam a atrair recursos estrangeiros, dando suporte ao real e interferindo diretamente na formação dos preços das commodities negociadas internacionalmente. Brandalize destacou que os juros brasileiros estão em patamares altos, atraindo moeda estrangeira. Esse fluxo de capitais fortalece o real, o que pode limitar a alta dos preços internos da soja, mesmo com a pressão externa.
O cenário internacional também permanece no radar, com os conflitos geopolíticos e as oscilações do petróleo influenciando os mercados agrícolas. Enquanto a colheita norte-americana tende a pressionar a soja para baixo, o comportamento do câmbio pode ajudar a limitar esse movimento no mercado brasileiro. O produtor nacional precisa monitorar tanto a oferta global quanto a taxa de câmbio para tomar decisões de venda.








