Pesquisar

Segundo turno: Flávio Bolsonaro é favorito; Lula aposta em abstenções

Flávio Bolsonaro e Lula disputam segundo turno presidencial com vantagem para o senador.. Foto: Gerada por IA | Adriano Hany

O segundo turno da eleição presidencial de 2026 começa com uma vantagem matemática clara para Flávio Bolsonaro (PL). O senador terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos, o que representa 47,03% dos votos válidos. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 53.879.538 votos, equivalentes a 45,16% do total. A diferença entre os dois é de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual. A definição do novo presidente ocorrerá no dia 25 de outubro.

Os outros dez candidatos que disputaram o primeiro turno somaram 9.316.747 votos, representando 7,81% dos válidos. Uma análise simulou para onde esses votos tendem a migrar, considerando o perfil político, o discurso de campanha e os apoios anunciados por cada candidato. Em todos os cenários testados, Flávio Bolsonaro amplia sua vantagem inicial. No entanto, a eleição não se decide apenas com a migração do eleitor dos derrotados.

Migração dos votos

Augusto Cury (Avante) ficou em terceiro lugar, com 3.448.569 votos (2,89%). O escritor conduziu uma campanha contra a polarização. Em setembro, declarou que não apoiaria Lula em nenhuma hipótese. Também condicionou um eventual apoio a Flávio Bolsonaro, exigindo explicações sobre o uso de recursos de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no filme “Dark Horse”. Cury também pediu que o senador assinasse em cartório o compromisso de executar seu plano de governo. “Ele tem que provar que não tem corrupção”, afirmou. No dia seguinte, declarou: “Não há condição de apoiar nenhum dos dois. Olha o histórico”. Após o primeiro turno, Cury não anunciou apoio a nenhum dos finalistas. A simulação estima que 40% dos eleitores dele migrem para Flávio, 30% para Lula e 30% optem por branco, nulo ou abstenção.

Renan Santos (Missão) obteve 2.675.887 votos (2,24%). Ele disputou o eleitorado conservador como alternativa a Flávio e recusou apoio ao senador. “Não consigo me misturar com essa gente”, disse em setembro. Depois do primeiro turno, afirmou que “não há direita no Brasil sem Bolsonaro”. A estimativa aponta 55% dos votos para Flávio, 10% para Lula e 35% para brancos, nulos e abstenções.

Ronaldo Caiado (PSD) teve 2.605.148 votos (2,18%). O ex-governador de Goiás anunciou apoio a Flávio Bolsonaro nesta terça-feira (6). O PSD, porém, ficou neutro e liberou os filiados para votarem como quiserem. A estimativa é de que 70% dos eleitores de Caiado migrem para Flávio, 10% para Lula e 20% para brancos, nulos ou abstenção. Romeu Zema (Novo) obteve 326.488 votos (0,27%) e declarou apoio a Flávio. A estimativa é de 75% para o senador e 5% para Lula.

Candidatos de partidos menores, como UP, PSTU, PCB e PCO, somaram 203.731 votos, com estimativa de cerca de 75% para Lula. Já DC e Democrata, de perfil conservador, tiveram 56.924 votos, com estimativa de 60% para Flávio.

Cenários e riscos

No cenário central da simulação, Flávio Bolsonaro receberia cerca de 4,9 milhões de votos dos derrotados, enquanto Lula receberia cerca de 1,7 milhão. Outros 2,6 milhões de votos iriam para branco, nulo ou abstenção. O placar ficaria em 52,3% para Flávio e 47,7% para Lula, com uma vantagem de 5,4 milhões de votos. No cenário mais favorável a Lula, Flávio venceria por 51,4% a 48,6%. No cenário mais favorável ao senador, o placar chegaria a 53% a 47%.

A vantagem do favorito é real, mas estreita para a margem de erro de campanha. A simulação aponta cinco frentes que decidem se essa liderança se sustenta. A principal é não perder o próprio eleitor. Cada 1% dos eleitores de Flávio no primeiro turno que migrar para Lula representa cerca de 561 mil votos. Como o voto sai de um lado e entra no outro, o efeito sobre a diferença dobra, para 1,1 milhão. Uma perda de 2% já anularia toda a vantagem do primeiro turno. Uma perda de 5% eliminaria a margem do cenário central.

Outro fator crucial é levar o eleitor às urnas. A abstenção vale para os dois lados. Se a campanha de Lula mobilizar quem ficou em casa e o eleitor de Flávio relaxar por se sentir vitorioso, a diferença encolhe. Manter o comparecimento da própria base pesa tanto quanto conquistar novos votos. A conquista do eleitor de Cury é o maior bloco em disputa, e Flávio não tem o apoio formal do candidato. Cury fez campanha contra os dois finalistas e colocou o caso “Dark Horse” como condição para qualquer aproximação. O eleitor dele, de centro, pode ir para Flávio, para Lula ou para o voto nulo. Se Lula vencer nesse grupo, a vantagem do senador diminui. Ainda assim, mesmo no cenário em que Lula fica com 40% desses eleitores, Flávio segue à frente.

Evitar a rejeição do eleitor de Renan Santos é outro ponto de atenção. O eleitorado do Missão é antipetista, mas parte dele também rejeita o bolsonarismo. Para Flávio, o risco não é perder esses votos para Lula, e sim vê-los virar nulo ou abstenção. Por fim, transformar apoios em votos é essencial. Flávio reúne Caiado, Zema, a federação PP-União Brasil e os governadores reeleitos de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e de Goiás, Daniel Vilela (MDB), que estiveram no anúncio em Goiânia. Ele também negocia o apoio formal do Republicanos. O PSD ficou neutro, o que deixa espaço para acordos com os diretórios estaduais. O senador também argumenta que o Congresso eleito no domingo é “muito mais à direita”, com maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado, usando isso como argumento de governabilidade.

O caminho de Lula depende de quem não escolheu ninguém no primeiro turno. Foram 33,5 milhões de abstenções (21,1% do eleitorado), além de cerca de 5,6 milhões de votos brancos e nulos. Pelo cenário central, Lula precisaria levar às urnas de 4 a 5 milhões de eleitores a mais que Flávio para inverter o resultado. Também precisaria ganhar com folga entre os eleitores de Cury. A campanha do presidente já reuniu aliados para reforçar a presença nas ruas e nas rádios.

O histórico recomenda cautela. Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 48,43%, contra 43,20% de Jair Bolsonaro. No segundo turno, a diferença caiu de mais de cinco pontos para menos de dois: Lula venceu com 50,90%, contra 49,10%. As pesquisas também erraram. Na véspera do primeiro turno deste ano, só um dos seis institutos que divulgaram levantamentos, o Gerp, mostrava Flávio numericamente à frente. A maioria subestimou o senador em 2 a 5 pontos.

Pela aritmética do primeiro turno, Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno como favorito. O voto dos candidatos derrotados está concentrado no centro e na direita, e Caiado e Zema já declararam apoio. A vantagem, porém, depende menos dos novos apoios e mais da capacidade de Flávio de manter e mobilizar os 56 milhões de eleitores que já votaram nele. Lula só vira se ampliar o comparecimento a seu favor e vencer no eleitorado de Cury. Até 25 de outubro, a disputa tende a se decidir pela fidelidade e pela mobilização das duas bases, mais do que pela troca de apoios. As taxas de migração usadas nesta análise são estimativas da reportagem, feitas a partir do perfil político, do discurso e dos apoios de cada candidato. Não são resultado de pesquisa eleitoral. Os votos do primeiro turno são do TSE.

Isso vai fechar em 35 segundos