O consumo de diesel no Brasil caminha para estabelecer um novo recorde histórico em 2026. Levantamento da consultoria StoneX projeta que a demanda pelo diesel B, produto final vendido nos postos, deve fechar o ano em 70,6 milhões de metros cúbicos. Isso representa um avanço anual de 1,6% em relação ao ano anterior.
Caso a tendência se mantenha para 2027, o volume deve alcançar 71,4 milhões de metros cúbicos, com alta de 1,2%. Esse cenário marcaria o 11º ano consecutivo de recorde de vendas no mercado nacional. A estimativa para o diesel A, o fóssil puro, é de 60,3 milhões de metros cúbicos neste ano e 61 milhões no próximo.
Centro-Oeste lidera demanda
O motor dessa expansão está concentrado no interior produtivo do país. A região Centro-Oeste teve sua projeção revista para 10,7 milhões de metros cúbicos em 2026, um crescimento de 2%. O vigor das operações agropecuárias sustenta esse desempenho.
Em Mato Grosso, a demanda deve subir 4,4%. Já em Mato Grosso do Sul, o ritmo acompanha a rota de escoamento da produção e anota alta de 2,2%. O comportamento do mercado reflete diretamente a necessidade de transporte nas estradas. O plantio da safra de soja e a acelerada produção de etanol de milho impulsionam a circulação de frotas pesadas na região.
O Nordeste também apresenta forte dinamismo, com avanço previsto de 2,2%, totalizando 11,4 milhões de metros cúbicos. O destaque fica por conta do Ceará, que projeta alta de 7%. Em contrapartida, os polos tradicionais do Sul e Sudeste mostram desaceleração.
As projeções para essas regiões foram corrigidas para baixo, prevendo altas discretas de 1% e 1,2%, respectivamente. Em São Paulo, o indicador aponta retração entre 0,25% e 0,3%. Esse recuo reflete a queda no desembarque de fertilizantes pelos portos, insumo vital que deixa de gerar fretes rumo aos polos de grãos, somada a um ritmo mais lento da atividade industrial do estado.
Oferta e importações
Enquanto o consumo acelera, a engrenagem de suprimento passou por uma reconfiguração profunda. Entre janeiro e setembro de 2026, a oferta global de diesel no território brasileiro somou 45,4 milhões de metros cúbicos. Esse volume manteve estabilidade frente aos 45,6 milhões apurados no mesmo ciclo de 2025. A balança interna, contudo, alterou sua origem.
As importações brasileiras despencaram 13,5%, totalizando 10,9 milhões de metros cúbicos. O principal freio esteve na Rússia, onde as cargas procedentes do país encolheram 28%. O volume passou de 6,9 milhões para 5 milhões de metros cúbicos. Para cobrir essa lacuna, as refinarias nacionais aumentaram a produção em 4,5%, disponibilizando 34,5 milhões de metros cúbicos ao mercado.
Essa rotação de fornecedores provocou uma virada contábil na balança nacional do produto. Que exibia superávit de cerca de 837 mil metros cúbicos em maio, o indicador encerrou setembro com déficit acumulado de 961 mil metros cúbicos. Apesar da curva negativa, as avaliações de mercado descartam o risco de um desabastecimento generalizado no território nacional.
O ponto crítico não está na disponibilidade do combustível, mas sim na eficiência do transporte interno. Polos dependentes de transferência de produtos, como o Centro-Oeste e o Norte, exigem sincronia rígida nas rotas para evitar gargalos pontuais nos picos de safra. O equilíbrio regional deve retornar apenas em 2027, quando o Sul deve retomar a liderança com alta de 1,4%, sob a expectativa de recuperação das lavouras gaúchas. O Centro-Oeste deve estabilizar o ritmo para 1,1%.
A cadeia do biodiesel é outro elo estratégico nessa expansão. A demanda nacional pelo biocombustível deve fechar 2026 em 10,30 milhões de metros cúbicos, um crescimento anual de 5,6%. Esse cenário é favorecido pelo consumo nas bombas e pela vigência do mandato B15, norma federal que determina a adição de 15% de biodiesel vegetal ao óleo mineral.
Até agosto, as vendas já atingiam 6,77 milhões de metros cúbicos, projetando pico sazonal em outubro. Os custos do setor, no entanto, operam sob forte pressão da matéria-prima. O óleo de soja, que responde por cerca de 85% do biodiesel produzido no país, subiu 10% desde julho na referência do interior de Mato Grosso. Em reflexo imediato aos custos industriais, as cotações do combustível verde acumulam elevação de 7,3% no mesmo período.
O desenho para 2027 está atrelado às decisões de Brasília. O cronograma prevê a conclusão dos testes laboratoriais de viabilidade até o patamar de 20% de mistura, o chamado B20, em fevereiro. Caso o mandato atual de 15% seja conservado, a demanda por biodiesel avançará contidos 1,2%, somando 10,43 milhões de metros cúbicos. Isso consumiria 8,27 milhões de toneladas de óleo de soja.
Por outro lado, caso o governo aprove a transição para o B16, com 16% de mistura obrigatória, a partir de março de 2027, o consumo de biocombustível dará um salto de 7%. O volume alcançaria 11 milhões de metros cúbicos, exigindo quase 8,75 milhões de toneladas de óleo vegetal. Conforme números da Agência Nacional do Petróleo, o parque fabril brasileiro está apto a absorver a nova demanda sem estrangulamento operacional, operando hoje com uma ociosidade média de 40%.








