O projeto Pontes da Justiça realizou sua segunda edição em Três Lagoas, reunindo advogados e magistrados para um debate técnico sobre a rotina do sistema de justiça. O evento, promovido pela Associação dos Advogados Independentes, contou com a presença do desembargador Vilson Bertelli, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
A iniciativa propõe um formato diferente do tradicional, focado no diálogo institucional. O objetivo é permitir que advogados compreendam melhor a perspectiva de quem decide processos diariamente, facilitando a comunicação técnica entre as partes.
Diálogo técnico
Lucas Rosa, presidente da Associação dos Advogados Independentes, explicou que a aproximação visa influenciar positivamente a forma como os magistrados analisam os casos. Segundo ele, entender a rotina de trabalho e as análises dos juízes ajuda a advocacia a sustentar argumentos com mais precisão.
“O Pontes da Justiça é um convívio da advocacia com a magistratura. Para nós, advogados, compreendermos melhor como está pensando o magistrado, como está vivendo a magistratura no dia a dia, na rotina de trabalho, no julgamento e nas análises de processos”, afirmou Rosa.
O desembargador Vilson Bertelli destacou que o encontro é fundamental para advogados mais jovens. Com o crescimento do número de cursos de Direito no Brasil, muitos profissionais saem da formação com insegurança sobre a prática forense. Bertelli reforçou que advogados e juízes têm funções diferentes, mas não atuam em lados opostos.
Desafios do Judiciário
O debate abordou a sobrecarga do Judiciário. Na área cível, um desembargador pode receber cerca de 1.200 processos em um mês. Bertelli observou que Mato Grosso do Sul vive uma situação mais confortável no cenário nacional, especialmente no segundo grau de jurisdição.
O magistrado relatou que mantém 190 processos em seu gabinete e classificou sua produtividade como alta. No entanto, avaliou que o serviço judiciário no Brasil ainda não está bom, apesar dos esforços do Conselho Nacional de Justiça. Parte do problema, segundo ele, reside no volume de casos e em um certo grau de desinformação técnica na atuação profissional.
Lucas Rosa relacionou esse diagnóstico ao objetivo do encontro. Defendeu que entender melhor o Judiciário ajuda a advocacia a atuar com mais precisão. “O que nós, advogados, estamos buscando fazer? Entender melhor o juiz, os juízes ou o Judiciário que vai decidir o problema do nosso cliente, que vai decidir o problema da população. Entendendo melhor eles, nós vamos defender melhor os nossos clientes”, resumiu.
O evento também tratou da crise no Supremo Tribunal Federal. Bertelli afirmou que a Associação de Magistrados Brasileiros publicou nota defendendo transparência nas investigações e esclarecimento à sociedade. Ele avaliou que a cúpula do Judiciário está atingida pelo momento, mas os efeitos se refletem em toda a magistratura.
O desembargador disse que magistrados estão perplexos e preocupados com a situação. Defendeu que a cobrança por esclarecimentos não deve partir apenas do próprio Judiciário, mas da sociedade como um todo, incluindo a OAB e a imprensa, à medida que a impressão inicial de que a atuação estava correta se dissipa.
Lucas Rosa fez uma distinção entre a crise no STF e a imagem da magistratura brasileira. Para ele, o problema no Supremo não representa todo o Poder Judiciário. “Crise no Supremo Tribunal Federal não é uma crise do Poder Judiciário. O Judiciário brasileiro não é o que nós estamos vendo no Supremo Tribunal Federal”, declarou.
O presidente da associação afirmou que a entidade tem uma proposta de reforma do Poder Judiciário. A primeira medida seria “tirar o Supremo do Poder Judiciário”. Segundo ele, o STF deveria deixar de julgar pessoas e casos concretos, pois os ministros acumulam muitas atribuições e contam com pouca fiscalização.
Rosa defendeu que a magistratura brasileira trabalha de forma silenciosa, com juízes e desembargadores que passam décadas na carreira antes de chegar aos tribunais. Na avaliação dele, os ministros do Supremo estão prejudicando a imagem da Corte e gerando descrédito entre advogados e na sociedade. A segunda edição do Pontes da Justiça manteve o foco em aproximar quem advoga de quem julga, com diálogo direto sobre rotina, limites e responsabilidades do sistema de justiça.







