Na segunda‑feira, 12 de outubro, as Polícias Civil e Militar de Mato Grosso do Sul impediram a realização de um evento de Dia das Crianças no bairro São Luís, em Pedro Gomes, que, segundo investigação, era organizado e financiado pelo Comando Vermelho. A ação evitou a distribuição de alimentos e brinquedos a crianças da comunidade, ao mesmo tempo em que frustrou a tentativa da facção de ganhar simpatia popular.
O desdobramento partiu de troca de informações entre as agências de inteligência estaduais, que apontaram a intenção da facção de promover “ações sociais” em três municípios do norte do estado – Sonora, Pedro Gomes e Coxim – no mesmo dia. O levantamento prévio continha data, horário e local exatos do evento em Pedro Gomes, além da identificação das organizadoras locais e de uma liderança externa que mantinha contato direto com elas e com fornecedores.
Em Pedro Gomes, o plano previa a montagem de uma festa às 15h no campo de futebol do bairro São Luís, com brinquedos infláveis pagos em dinheiro vivo no próprio local, prática que dificulta o rastreamento da origem dos recursos. As organizadoras eram duas mulheres; uma delas afirmou que o evento seria para as crianças da comunidade, mas não apresentou autorização oficial e já era conhecida das forças de segurança por suposta ameaça a vizinhos em nome da facção.
Ação policial
A operação policial, baseada no padrão já observado em Sonora – onde duas mulheres foram presas e cerca de 200 brinquedos e doces apreendidos – concentrou esforços em Pedro Gomes. No local, as equipes encontraram as duas mulheres montando a estrutura de distribuição de alimentos, apreenderam brinquedos infláveis, alimentos e documentos que apontavam para a ligação com o Comando Vermelho. Uma segunda investigada foi presa em flagrante por crime de favorecimento ao domínio social estruturado, tipificado na Lei nº 15.358/2026, que prevê pena de 12 a 20 anos de reclusão.
Os aparelhos apreendidos continham conversas que faziam referência direta ao Comando Vermelho e mostravam transferências via Pix entre as investigadas, confirmando o financiamento da ação por contas bancárias da segunda investigada. As autoridades também identificaram que a prática de pagamento em dinheiro vivo ocorreria no próprio campo de futebol, dificultando a rastreabilidade dos recursos e reforçando a estratégia de ocultação financeira da facção.
Conforme relatório da Vigilância Sanitária municipal, chamada a pedido da autoridade policial, os alimentos apreendidos não puderam ser avaliados quanto à segurança, pois não se sabia em que condições de higiene foram preparados. O órgão declarou que o material era impróprio para consumo humano e determinou seu descarte adequado, evitando que crianças ingerissem produtos de procedência desconhecida.
Estratégia criminosa
Segundo o relatório policial, as chamadas “ações sociais” são parte de uma estratégia deliberada das organizações criminosas. Ao distribuir benefícios e promover eventos comunitários, a facção tenta se apresentar como protetora da população, criar laços de dependência e legitimar sua presença nos bairros. Essa prática, descrita como narcocultura, busca naturalizar a presença das facções no cotidiano, desencorajar a colaboração dos moradores com a polícia e facilitar a continuidade das atividades ilícitas.
As duas mulheres detidas foram autuadas por integrarem e favorecerem organização criminosa, e a prisão preventiva foi mantida pelo Poder Judiciário. Outras pessoas continuam investigadas por suposto pertencimento ao grupo. O caso segue em fase de instrução, com a expectativa de que o julgamento determine penas conforme a Lei nº 15.358/2026, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de vigilância nas comunidades do norte do estado para impedir novas tentativas de “ações sociais” criminosas.







