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Campo Grande alcança 95% de cobertura de esgoto e melhora indicadores de saúde

O caminho até a preservação ambiental e a saúde pública depende de coleta, tratamento adequado e ligação dos imóveis ao sistema Foto: Águas Guariroba

Campo Grande atingiu a marca de 95% de cobertura da rede coletora de esgoto, segundo dados da concessionária Águas Guariroba referentes a setembro de 2026. O avanço na infraestrutura de saneamento básico representa uma mudança significativa na rotina dos moradores e nos indicadores de saúde pública da capital sul-mato-grossense. A meta estabelecida pela empresa é alcançar 98% de cobertura até o ano de 2028, consolidando o processo de universalização do serviço.

Esse progresso não se limita apenas à instalação de tubulações nas ruas. O sistema de esgotamento sanitário envolve um ciclo completo que começa na residência do cidadão e termina no retorno do efluente tratado ao meio ambiente. A eficiência desse processo está diretamente ligada à preservação dos rios e córregos da cidade, bem como à redução de doenças transmitidas pela água contaminada ou pelo contato com dejetos.

Da fossa à rede coletora

Para muitos moradores, a transição do sistema individual de fossa séptica para a rede pública foi um alívio financeiro e sanitário. Ana Patrícia Alves Vieira, moradora do Jardim Itatiaia, relata que antes da ligação do imóvel à rede, ela precisava contratar o serviço de esvaziamento da fossa uma vez por ano, com custo médio de R$ 300. Para uma família de três pessoas, esse valor representava uma despesa recorrente e significativa.

Após a conexão à rede coletora, há cerca de dois anos, a rotina da família mudou. O esgoto deixou de ser armazenado em reservatórios domiciliares e passou a seguir pelas tubulações do sistema público. A moradora destaca a eliminação de problemas como entupimentos e mau cheiro, além da tranquilidade de saber que o descarte está em conformidade com as normas sanitárias. Ela aponta que famílias maiores enfrentariam custos ainda mais elevados com a manutenção de fossas.

Apesar do avanço da rede pública, o engenheiro ambiental Antônio Carlos Sampaio alerta para os riscos persistirem em imóveis que ainda utilizam sistemas individuais inadequados. Ele explica que muitos moradores constroem apenas sumidouros, estruturas que não realizam tratamento adequado, e os confundem com fossas sépticas. O esgoto infiltrado nesses casos pode atingir o aquífero freático, causando contaminação do solo e da água subterrânea, especialmente em áreas urbanas com lotes pequenos e próximos.

Infraestrutura e monitoramento ambiental

A expansão do saneamento em Campo Grande ganhou força a partir de 2006, com a implementação do programa Sanear Morena. Atualmente na terceira fase, o projeto investiu cerca de R$ 255 milhões nas duas primeiras etapas. A rede coletora da capital ultrapassa 3.300 quilômetros de extensão, suportada por três estações de tratamento: Los Angeles, Imbirussu e Botas. Juntas, essas unidades possuem capacidade para tratar 1.220 litros de esgoto por segundo.

Fernando Garayo, gerente de meio ambiente da Águas Guariroba, esclarece a diferença entre os indicadores de cobertura e de tratamento. A cobertura mede a parcela da população com acesso à infraestrutura na porta de casa, enquanto o índice de tratamento refere-se ao volume efetivamente coletado e processado. Em Campo Grande, 100% do esgoto coletado pela rede pública é tratado antes de ser devolvido ao meio ambiente.

O monitoramento da qualidade da água é realizado por meio do programa Córrego Limpo, que acompanha 83 pontos distribuídos em 21 córregos urbanos. As análises trimestrais avaliam parâmetros como temperatura, pH, oxigênio dissolvido, coliformes, nitrogênio, fósforo, sólidos e turbidez. Os resultados, coletados há mais de 16 anos, mostram uma evolução positiva: em 2010, 60% dos pontos apresentavam qualidade boa, índice que subiu para 81% em 2024.

O tratamento do esgoto também gera resíduos, conhecidos tecnicamente como biossólidos ou lodo de esgoto. Na estação Los Angeles, o material é encaminhado para um aterro sanitário licenciado. Já na Estação Imbirussu, parte do biossólido é reaproveitada em ações de reflorestamento e restauração ambiental, aproveitando nutrientes como nitrogênio e fósforo para a recuperação da vegetação, desde que atendidas as exigências legais.

Os impactos do saneamento na saúde pública são evidentes nos dados da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). Entre 2011 e 2024, a cobertura de coleta de esgoto na capital passou de 61,3% para 91,1%. No mesmo período, a incidência de internações por diarreia caiu de 2,90 para 1,36 por 10 mil habitantes, uma redução de aproximadamente 53%. Em 2024, foram registradas 2,42 internações por 10 mil habitantes por doenças de veiculação hídrica.

Eduardo Castro Ferreira, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mato Grosso do Sul, destaca que a falta de saneamento favorece a transmissão de doenças como diarreia, hepatite A, cólera, verminoses e leptospirose. Ele também alerta para a proliferação de vetores de dengue, zika e chikungunya em ambientes com acúmulo de resíduos. A abordagem da saúde única considera que a contaminação da água, do solo e dos animais aumenta os riscos sanitários para toda a sociedade, tornando o saneamento um investimento essencial para a prevenção de doenças.

Os indicadores de saúde funcionam como um termômetro das condições sanitárias. A queda nas internações por doenças diarreicas e a ausência de mortes relacionadas a esses agravos nos últimos três anos analisados pela Sesau sugerem resultados positivos dos investimentos em infraestrutura. Em 2024, houve 153 casos confirmados de hepatite A, após um período sem ocorrências entre 2019 e 2023. A relação entre a ampliação do saneamento e a redução de doenças deve considerar também o acesso à água potável e as condições ambientais de cada região.

O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, posiciona Campo Grande na 31ª posição entre os 100 municípios mais populosos do país, uma evolução de seis posições em relação à edição anterior. O estudo, que utiliza dados de 2024, registra R$ 1,37 bilhão em investimentos no período de 2020 a 2024 e perdas de 20,69% na distribuição de água. A capital já alcançou etapas previstas no Marco Legal do Saneamento com oito anos de antecedência, embora desafios como o combate a ligações clandestinas e a ampliação da conexão dos imóveis à rede ainda persistam para a universalização completa do serviço.

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