A escritora e jornalista Ana Maria Rodrigues Barbosa apresentou, nesta quinta‑feira, o livro infantojuvenil “Miados de Ditados” na Feira Literária do Colégio Anglo, em Três Lagoas, MS. A obra transforma ditados populares que citam gatos em poemas curtos para crianças, buscando aproximar o público jovem da leitura e da cultura oral.
A proposta parte de expressões do cotidiano que usam o felino como metáfora, como “gato e sapato”, e as converte em versos de humor e linguagem acessível. Cada poema traz a brincadeira com a oralidade, permitindo que a criança reconheça a origem popular das frases enquanto desenvolve o gosto pela poesia. A ilustração acompanha cada poema, reforçando o tom lúdico e facilitando a visualização da cena para o leitor jovem.
“Eu trabalho ditados populares que falam de gatos. A partir daí, eu faço os poemas, e a ilustradora criou a ilustração fazendo essa brincadeira sobre os ditados populares, sobre a nossa oralidade, sobre aquilo que é cultura da nossa língua”, contou a autora.
Além de divertir, a autora procura inverter o olhar sobre expressões que associam o gato a situações humanas negativas. “A gente brinca com isso trazendo outra leitura, fazendo humor, passando pano para o gato”, resumiu, mostrando que a obra também propõe uma nova perspectiva cultural.
Processo criativo
Com mais de três décadas de experiência no jornalismo, Ana Maria traz para a literatura a mesma busca por clareza e concisão. “Eu trago um pouco dessa fluidez, dessa facilidade do texto para a minha literatura. Isso me preocupava muito, porque eu achava que não conseguiria ser literária o suficiente por ser jornalista demais”, afirmou. Essa experiência jornalística também a ensinou a selecionar informações essenciais, característica que se reflete na estrutura enxuta dos versos.
A prática de escrever microcontos acompanha a autora desde a vida inteira, e agora se incorpora aos poemas curtos de “Miados de Ditados”. “Tem sido um exercício muito legal. Eu gosto muito de escrever microcontos, então isso está sendo englobado, essa prática da vida inteira”, disse.
Estreia tardia
Apesar da longa relação com a escrita, Ana Maria nunca sonhou em publicar um livro. “Eu olhava o livro como uma instituição, como algo muito inalcançável. Embora eu saiba que tenha qualidade como escritora de jornalismo, eu tinha o livro como algo muito longe de mim”, relatou, revelando a distância que sentia da literatura tradicional.
A virada ocorreu no ano passado, quando decidiu se permitir experimentar novas áreas. Enviou textos a concursos e editoras; algumas propostas chegaram a fases finais, e a primeira aprovação a fez afirmar: “Quando eu ganhei o primeiro, eu animei. Falei: não, eu já sou escritora, vou ser escritora. Isso me empoderou”, contou.
A ideia do livro nasceu de uma frase que ouviu na época da faculdade, quando morava na residência estudantil da USP e cuidava dos gatos do local. Uma colega, irritada, disse que o namorado a tratava “como gato e sapato”. “Eu falei: por que essa relação do gato com sapato, tratando mal? E ficou aquela coisa na minha cabeça: gato não é sapato”, lembrou.
A partir daí, a escritora pesquisou ditados populares e encontrou 28 expressões que citam o gato, número muito superior ao de outros animais. “Eu falei: o humano se identifica com o gato. Coitado do gato”, brincou, mostrando como o felino permeia a linguagem cotidiana.
Ana Maria se define como gateira e convive atualmente com cinco gatos, relação que remonta à infância, quando preferia “pegar gatinhos” ao invés de frutas dos vizinhos. Essa afinidade pessoal reforça a escolha do tema e a sensibilidade ao retratar o animal nas rimas.
Embora escreva crônicas e contos para adultos, a autora afirma que o infantil é o campo onde deseja concentrar sua energia. “Eu acho que seria natural eu escrever para as infâncias. O infantil é o que eu quero trabalhar mais, é o que eu quero trabalhar para esse público”, declarou.
Para ela, os jovens de hoje têm mais oportunidades de ler que quando cresceu em Três Lagoas, quando o acesso se limitava a gibis e poucas livrarias. Hoje, as opções digitais, compras online e impressão sob demanda ampliam o contato com livros, ainda que a cidade careça de mais pontos físicos de venda. Plataformas como Kindle e audiolivros também ampliam o alcance, permitindo que professores e pais incluam a obra em atividades pedagógicas.
Após passar por três editoras que ofereciam apenas 10% de royalties e exigiam a compra de exemplares para presente, Ana Maria optou por publicar de forma independente. Criou, junto ao filho, uma pequena editora familiar que já trabalha em outros títulos, garantindo maior controle sobre a obra.
“Eu sou funcionária dele, escritora dele, e a gente está trabalhando até outros livros também”, brincou, ressaltando a parceria familiar na produção e distribuição do livro.
“Miados de Ditados” pode ser adquirido diretamente com a autora pelas redes sociais, na Papelaria Contact, em Três Lagoas, ou pela plataforma Uiclap, que oferece impressão sob demanda. Essa variedade de canais facilita o acesso ao público local e a leitores de outras regiões.
A escritora destacou ainda o movimento literário da cidade, que se organizou no coletivo “Três Lagoas Tem Literatura”. O grupo promove uma feira de 2 a 5 de dezembro na Biblioteca Municipal Rosário Congro, com atividades pela manhã e à tarde, além de programação no sábado. A programação inclui contação de histórias, oficinas de escrita criativa e roda de leitura, reunindo autores, ilustradores e estudantes de escolas da região.
O coletivo também concorre a edital ligado à PNAB, buscando recursos para ampliar a feira no próximo ano e consolidar Três Lagoas como polo de produção cultural, apesar de ser conhecida como a capital mundial da celulose. O edital da Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAB) prevê recursos para projetos que incentivem a leitura nas escolas, e o coletivo pretende usar esses fundos para distribuir exemplares gratuitos nas unidades de ensino.
Com “Miados de Ditados”, Ana Maria Rodrigues Barbosa amplia o leque de opções de leitura para crianças e reforça a importância de iniciativas locais que incentivam a literatura. O livro, ao transformar ditados em poesia, promete estimular a curiosidade dos pequenos e fortalecer a presença dos autores três‑lagoanos no cenário nacional.







